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Minha ida semanal à terapia completará dois anos muito em breve. A razão que me levou — muito específica, etérea talvez — certamente já não é a mesma que me mantém por lá. Há quem acredite que falo mais atualmente. Não em quantidade, digo, mas talvez em relevância, em abertura. Dizem que quem mais percebe eventuais mudanças são as pessoas que nos cercam no convívio, o que já constatei algumas vezes. Minha auto-análise, porém, é muito mais rasa. Constatei isso ao tentar escrever o "about me" do Orkut. Ficou mais ou menos assim:
Felipe, 28 anos, corinthiano. Nascido no ano da Revolução Islâmica de Khomeini no Irã, bendito fruto da década perdida e da geração de filhos criados pela mãe (atualmente nem isso mais). Legítimo representante da geração da comida congelada, macarrão instantâneo, refrigerante em garrafa de plástico e música no fone de ouvido. Cresci com as altas doses alcóolicas do Biotônico Fontoura, da cocaína nas balas Van Mellen e das substâncias entorpecentes e viciantes contidas no gelinho vendido na porta da escola. Tudo isso junto explica a predisposição a tudo que contenha a palavra grau e contenha fumaça. Gosto de música, já gostei mais de cinema, realmente acredito em tudo o que se passa no Arquivo-X e ainda acho que a A Bruxa de Blair é baseado em fatos reais. Piso na calça, meu cadarço desamarra com freqüência, tenho uma teoria de que o ovo, mesmo sem a casca, tenha vindo antes da galinha, e consigo ver, daqui do chão, que a Terra é redonda. Nunca vi uma estrela cadente em São Paulo. Acho, aliás, essa a pior cidade do mundo mesmo sem conhecer Darfur, no Sudão. Moro na Rua Santa Cruz das Palmeiras e o fato de a Claire morar na Rua Santa Cruz me faz acreditar que fomos feitos um para o outro. Acho a noite mais valiosa que o dia, tenho medo da palavra perda e uma atração mórbida pela palavra mudança. Costumava achar os anos ímpares melhores. Mais do que nunca, não entendo porque as pessoas morrem...
Há uma sutil semelhança entre Beleza Americana, premiado longa vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2000, e Pequena Miss Sunshine, a maior surpresa da premiação este ano. Ambos colocam a família norte-americana em foco, e desnudam o american way o life e seus medos, anseios e frustrações. Mas enquanto o longa de Sam Mendes apostava em mostrar um típico núcleo familiar com verniz de perfeição e aos poucos tirar a sujeira debaixo do tapete, Pequena Miss Sunshine vai direto ao assunto.
Nesse longa de caráter independente, rodado por dois diretores egressos da MTV (Jonathan Dayton e Valerie Faris), a imperfeição é a palavra de ordem, em tipos que eu, você e provavelmente qualquer pessoa que supere sua pouco mais de hora e meia de exibição encontram diariamente em casa ou no trabalho.
A família Hoover pode ser considerada excêntrica. Talvez não da maneira ácida e quase caricata quanto os Tenenbaums (de Os Excêntricos Tenenbaums, 2001), mas com suas próprias esquisitices. Sheryl (Toni Collette) é a mãe neurótica e que há tempos perdeu o controle da rotina de casa. É casada com Richard (o fraco Greg Kinnear, aqui sem comprometer), uma tentativa frustrada de guru de auto-ajuda, e mora com o sogro (Alan Arkin, sem nome, conhecido apenas como "o Avô"), um velhinho expulso do asilo graças a um vício tardio em heroína.
Completam o time o filho Dwayne (Paul Dano), uma mistura de indie com emo que lê Nitzsche e faz voto de silêncio para entrar na Aeronáutica, a simpática Olive (Abigail Breslin), uma criança adorável e curiosa como qualquer menina de sete anos de idade e o visitante tio Frank (Steve Carrell), um professor de literatura especializado em Proust que se recupera de uma tentativa de suicídio causada por uma frustrada paixão homossexual.
Somos levados a participar da vida dessas personagens quando a pequena Olive entra na disputa por um concurso de beleza para pré-adolescentes e o clã é obrigado a atravessar o país em uma kombi amarela, velha e enferrujada (uma metáfora da própria família, decadente, caindo aos pedaços, mas que vai para frente aos empurrões). São nesses momentos de road-movie que mescla comédia com pitadas dramáticas que as diferenças de pensamentos ficam claras, a omissão dos pais na criação dos filhos se revela e onde torna-se evidente o fato de que estar sob o mesmo teto é receita de sucesso para moldar personalidades tão diferentes.
Não é preciso muito esforço para simpatizar e se identificar com esse time, que apesar de representar muitas das fraquezas e neuras modernas que atingem o dia-a-dia de qualquer ser-humano, resumem de forma muito singela os papéis que cada um desempenha dentro de uma estrutura familiar. As seqüências finais já classificam o filme como um cult moderno, que se popularizou no boca-a-boca, ganhou prêmios em festivais independentes e impressionou até mesmo seus realizadores.
Pequena Miss Sunshine levou o prêmio máximo do Sindicato dos Roteiristas e foi indicado pela Academia em quatro categorias. Ganhou Roteiro Original e Ator coadjuvante. É uma grande ironia dessa instituição que representa Hollywood, que colocou a desajeitada Abigail e o restante da família Hoover para disputar, talvez, aquele que seja o maior concurso de beleza do cinema americano: o Oscar.
A estréia de Efeito Borboleta 2 me fez lembrar o quão boa é a primeira parte da franquia. Talvez seja um dos últimos filmes em que eu tenha saído do cinema com a sensação de ter assistido a um cult. E olha que se vão mais de dois anos. E lembrar do filme do Ashton Kutcher me remeteu a outra pérola, essa ainda ignorada pela maioria das pessoas, já que entrou direto nas locadoras: Donnie Darko.
A história é das mais malucas do mundo: se passa em uma cidadezinha americana nos anos 80, envolve um garoto freak, esquizofrenia, viagem no tempo, turbina de avião e Frankie, um coelho gigante. Assisti bem sem querer, gostei demais, mas preciso de uma revisitada. Para quem não conhece, o Orkut hospeda mais de 20 comunidades sobre o longa.
Para matar a curiosidade, pincei uma das conversas mais doidas de Donnie. Na realidade, a teoria do protagonista sobre os Smurfs. "Primeiro de tudo, Papai Smurf não criou a Smorfete. Foi o Gargamel. Ela foi enviada por ele como um espião do mal com a intenção de destruir a vila dos Smurfs, mas a bondade excessiva de Smorfete a transformou. E pela história, isso não poderia ter acontecido. Smurfs são assexuados. Eles não têm órgãos reprodutivos debaixo daquelas pequenas calças brancas. Isto é o lado ilógico, você sabe, de ser um Smurf. Qual o sentido da vida se você não tem um pênis?"