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Cerebralização juvenilizante e juvenilização cerebralizante. Os dois termos me foram apresentados há quase dez anos, pela professora Nehy, de Antropologia. Uma aula irritante para alguém com 17 anos e, sobretudo, quando ocupa suas sextas-feiras com filmes preto-e-branco sobre símios se assutando com fogueiras. Enfim, as duas expressões tratam, não necessariamente nessa ordem (frisa-se o nessa ordem) de situações corriqueiras que acometem a socidade. Casos práticos logo mais.
No geral, descrevem o processo cada vez mais precoce de as crianças amadurecerem e, posteriormente, de postergarem a mocidade quando já adultos. Isso é Antropologia e Antropologia é vida. Não é de agora que as crianças encurtam um dos períodos mais bacanas em troca dos primeiros beijos, goles e tragadas. É como se as meninas, antes do tempo, trocassem a Barbie pelo Ken.
Isso traz problemas sérios no desenvolvimento das pessoas, comprometendo-as com aspectos aparentemente simples, como a segurança para tomar uma decisão, já que não estão preparadas para isso. Culpa dos pais, principalmente aqueles que vestem meninas de seis anos de idade como prostitutas da Xuxa. O grave é que a saudável brincadeira de médico, atualmente, dá até diploma.
Ao mesmo tempo, e quando na vida adulta, essas pessoas (trato aqui sobretudo das da geração 80, especificamente aquelas que foram crianças ou pré-adolescentes na década perdida, meu caso) fogem do padrão dos seus pais (casam tarde, não ligam para estabilidade financeira etc) e dificilmente se vêem como mais velhos. A crise dos 30 virou lenda. Finais de semana são entregues a jogos de tabuleiro sem o menor pudor. Baladas? Beber até cair? Deixe para a galera com 13, 14 anos...
Outro dia, em um churrasco, ouvi uma frase sintomática: "Estamos num puta churrasco, com um monte de meninas....e batendo figurinhas". Uma amiga tem uma tese interessante. Uma não, duas. A primeira é que negamos na cara dura nossa idade, e essa volta das atividades da infância é prova disso. Tem fundamento. Afinal, ninguém sai de casa para dançar ao som de Menudo porque acha a banda boa. Renderia horas de terapia.
Outra teoria é que, hoje, podemos comprar tudo aquilo que não pudemos ter na infância. Parece até que o mercado está atento a esse perfil de consumidor, que trabalha, tem grana e pode gastar quanto for com brinquedinhos modernos. A diferença entre crianças e adultos nessa história toda é justamente essa: o preço do brinquedo.
Demorei anos para começar, mas poucos dias para terminar, duas leituras que deveriam ser básicas para todos: as obras 1984 (George Orwell) e Admirável Mundo Novo (Audous Huxley). A primeira carrega um ar mais pessimista, carregado. A segunda é mais cínica e divertida, mas longe de refletir otimismo. Tratam, basicamente, de mostrar como seria uma sociedade governada com autoritarismo, que impusesse deveres, direitos e mesmo gostos à população. As pessoas, no geral, são apenas marionetes a serviço de uma vontade que não é a delas — até porque elas não têm nenhuma vontade além da que lhes foi condicionada.
Em Admirável Mundo Novo, o condicionamento se faz de pequeno. Cria os Alfas, mais inteligentes e capazes (não de tomar decisões, diga-se, já que essas ficam a cargo de Ford, o equivalente ao nosso Deus); os Betas, os Gamas, etc, cada um com funções operacionais pré-determinadas e imutáveis. Os bebês são de proveta, o amor materno inexiste. O amor inexiste. Mães inexistem. O envolvimento é puramente sexual, e com um maior número de parceiros possível — não há doenças, paixão. Qualquer insatisfação é controlada com doses de soma, espécie de LSD fornecida aos tubos pelo governo. Afinal, é mais fácil oferecer felicidade em pílulas.
A sociedade vive, na obra, em Londres, e realiza comumente passeios para áreas onde podem avistar os Selvagens, ou a sobra que restou das pessoas como as conhecemos hoje em dia, com resquícios de sentimentos, apreço por valores básicos como amizade, religião, etc. As excursões dos gringos pela Favela da Rocinha talvez ilustrem melhor.
Os livros, repito, deveriam ser lidos por todos e mais de uma vez na vida. Ficará mais fácil visualizar como vivemos em uma sociedade dividida por castas, ainda que essa denominação se aplique oficialmente apenas aos indianos. Nosso valores inexistem da mesma maneira que no livro. Mata-se mãe, rouba-se amigo, puxa-se o tapete por empregos miseráveis. Há uma grande diferença das idéias centrais de George e Audous, sim: ainda temos sentimentos, ainda que deturpados e a cada dia voltados mais e mais para benefícios próprios.
Governos criam guerras para alimentar a indústria de armas; a sociedade cria doenças para alimentar a indústria farmacêutica. O capitalismo alimenta o consumo. Existe até um termo novo entre os marketeiros (Must have) que designa objetos que não servem para nada, no sentido de subsistência, mas que todo mundo deve ter porque todos os outros têm.
Existe um filme classudo que faz analogia ótima com o que digo. Alvorada dos Mortos, de George Romero, mostra uma cidade tomada por zumbis atacando os poucos mortais que restaram dentro de um shopping center. Referência maior ao impulso capitalista da nossa sociedade descerebrada não há. Não há lugar mais propício para ilustrar a decadência da humanidade do que num centro de compras desses. É só ir a algum dos 38 que existem em São Paulo e conferir.