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Há uma sutil semelhança entre Beleza Americana, premiado longa vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2000, e Pequena Miss Sunshine, a maior surpresa da premiação este ano. Ambos colocam a família norte-americana em foco, e desnudam o american way o life e seus medos, anseios e frustrações. Mas enquanto o longa de Sam Mendes apostava em mostrar um típico núcleo familiar com verniz de perfeição e aos poucos tirar a sujeira debaixo do tapete, Pequena Miss Sunshine vai direto ao assunto.
Nesse longa de caráter independente, rodado por dois diretores egressos da MTV (Jonathan Dayton e Valerie Faris), a imperfeição é a palavra de ordem, em tipos que eu, você e provavelmente qualquer pessoa que supere sua pouco mais de hora e meia de exibição encontram diariamente em casa ou no trabalho.
A família Hoover pode ser considerada excêntrica. Talvez não da maneira ácida e quase caricata quanto os Tenenbaums (de Os Excêntricos Tenenbaums, 2001), mas com suas próprias esquisitices. Sheryl (Toni Collette) é a mãe neurótica e que há tempos perdeu o controle da rotina de casa. É casada com Richard (o fraco Greg Kinnear, aqui sem comprometer), uma tentativa frustrada de guru de auto-ajuda, e mora com o sogro (Alan Arkin, sem nome, conhecido apenas como "o Avô"), um velhinho expulso do asilo graças a um vício tardio em heroína.
Completam o time o filho Dwayne (Paul Dano), uma mistura de indie com emo que lê Nitzsche e faz voto de silêncio para entrar na Aeronáutica, a simpática Olive (Abigail Breslin), uma criança adorável e curiosa como qualquer menina de sete anos de idade e o visitante tio Frank (Steve Carrell), um professor de literatura especializado em Proust que se recupera de uma tentativa de suicídio causada por uma frustrada paixão homossexual.
Somos levados a participar da vida dessas personagens quando a pequena Olive entra na disputa por um concurso de beleza para pré-adolescentes e o clã é obrigado a atravessar o país em uma kombi amarela, velha e enferrujada (uma metáfora da própria família, decadente, caindo aos pedaços, mas que vai para frente aos empurrões). São nesses momentos de road-movie que mescla comédia com pitadas dramáticas que as diferenças de pensamentos ficam claras, a omissão dos pais na criação dos filhos se revela e onde torna-se evidente o fato de que estar sob o mesmo teto é receita de sucesso para moldar personalidades tão diferentes.
Não é preciso muito esforço para simpatizar e se identificar com esse time, que apesar de representar muitas das fraquezas e neuras modernas que atingem o dia-a-dia de qualquer ser-humano, resumem de forma muito singela os papéis que cada um desempenha dentro de uma estrutura familiar. As seqüências finais já classificam o filme como um cult moderno, que se popularizou no boca-a-boca, ganhou prêmios em festivais independentes e impressionou até mesmo seus realizadores.
Pequena Miss Sunshine levou o prêmio máximo do Sindicato dos Roteiristas e foi indicado pela Academia em quatro categorias. Ganhou Roteiro Original e Ator coadjuvante. É uma grande ironia dessa instituição que representa Hollywood, que colocou a desajeitada Abigail e o restante da família Hoover para disputar, talvez, aquele que seja o maior concurso de beleza do cinema americano: o Oscar.