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Um pouco de tudo sobre o nada

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Terra Blog

Categoria: Entretenimento

12.10.06

A teoria dos Smurfs

categorias: Entretenimento

A estréia de Efeito Borboleta 2 me fez lembrar o quão boa é a primeira parte da franquia. Talvez seja um dos últimos filmes em que eu tenha saído do cinema com a sensação de ter assistido a um cult. E olha que se vão mais de dois anos. E lembrar do filme do Ashton Kutcher me remeteu a outra pérola, essa ainda ignorada pela maioria das pessoas, já que entrou direto nas locadoras: Donnie Darko.

A história é das mais malucas do mundo: se passa em uma cidadezinha americana nos anos 80, envolve um garoto freak, esquizofrenia, viagem no tempo, turbina de avião e Frankie, um coelho gigante. Assisti bem sem querer, gostei demais, mas preciso de uma revisitada. Para quem não conhece, o Orkut hospeda mais de 20 comunidades sobre o longa.

Para matar a curiosidade, pincei uma das conversas mais doidas de Donnie. Na realidade, a teoria do protagonista sobre os Smurfs. "Primeiro de tudo, Papai Smurf não criou a Smorfete. Foi o Gargamel. Ela foi enviada por ele como um espião do mal com a intenção de destruir a vila dos Smurfs, mas a bondade excessiva de Smorfete a transformou. E pela história, isso não poderia ter acontecido. Smurfs são assexuados. Eles não têm órgãos reprodutivos debaixo daquelas pequenas calças brancas. Isto é o lado ilógico, você sabe, de ser um Smurf. Qual o sentido da vida se você não tem um pênis?"

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  • Postado em 15:42:06

13.09.06

A sangue frio

categorias: Entretenimento

Não vejo muita ligação entre jornalismo e literatura. Vejo o primeiro como um simples ato de transcrever fatos, ao passo que o segundo é uma interpretação da realidade, às vezes melhorada, às vezes não. Em A Sangue Frio, Truman Capote tentou mesclar esses dois universos distintos. Sua idéia era revolucionar o mercado editorial com o que batizou de "romance de não-ficção". Ou "romance sem ficção". 

O resultado é controverso, no sentido de que se gabou por algo que já existia, inclusive no veículo para qual prestava contas, o New York Times. Controvérsia, aliás, não faltou na vida desse jornalista arrogante, homossexual e exótico. Ao ponto de dedicar seis anos a decifrar uma pequena nota que leu ali mesmo no NYT e que chamou sua atenção: o assassinato brutal de quatro membros da família Clutter, que viviam numa cidade jeca do Kansas.

A cidade, Holcomb, é um microcosmo da sociedade americana, cheia de moralismo, protestantes e tortas de cereja.  É ali que Capote passa 4 anos para esmiuçar qual o impacto desses assassinatos; qual a relação dos locais com os Clutter; as desconfianças em torno dos assassinos; a fixação pela pena de morte.  

Tudo de uma maneira bem peculiar. Capote preferia fazer amizade com suas "fontes". Entendia que, falando de si, conseguiria tirar as informações que desejava. Não utilizava gravador tampouco anotações. Mesmo assim dizia ter material para duas mil páginas de livro.

A Sangue Frio detalha os crimes, a vida de Perry e Hichcock antes e depois dos Clutter, suas prisões, suas execuções. Tudo de maneira magistral. Uma literatura magistral. Não jornalismo.

  • criado por  gnoofella criado por gnoofella
  • Postado em 23:18:20

29.08.06

Thumbsucker

categorias: Entretenimento

A tradução errônea para o título do filme acima — Impulsividade — não estraga em nada essa pequena obra-prima descoberta em Sundance no ano passado. Primeiro porque um longa chamado Chupador de Dedão, se não for pornô, deve ser mesmo muito bacana. Segundo porque as atuações, principalmente do protagonista, são muito sinceras. E terceiro porque o filme inteiro tem trilha de Elliott Smith. Impossível não lembrar de Gênio Indomável, que também tinha músicas do finado cantor de alt-folk e tratava, bem ou mal, de desajustados.

Não me concentrarei a nomes de atores/diretores. Já fui melhor nisso, eu sei, mas acho que aqui isso não faz diferença. O "problemático" da vez é um garoto de seus 17 anos, meio travado, meio andrógino até (tem cabelo lambido, voz meio fina e jeito do Brett Anderson do Suede). Não é viado, não resta dúvida, mas se sente estranho no ninho por chupar o dedo. Sua encanação aumenta porque não consegue chegar no amor da escola, seu pai é ausente, seu irmão mais novo o apavora, seu professor o coage e seu dentista quer corrigir seus "problemas" psicológicos com hipnose.

O filme se desenvolve em paralelo à vida do personagem, que troca o dedo por anti-depressivos, maconha e sexo. Tudo, segundo o dentista, para substituir a carência que sente pela omissão da mãe. Uma espécie de fase oral eterna em que substitui a chupeta por qualquer coisa que caiba em sua boca.

Contar uma linha a mais estragaria o final. Impulsividade, no fim das contas, agrada por tratar da normalidade. Ainda que sob a máscara de supostos problemas que afetam nossa sociedade. As pessoas, no fim, são tão estupidamente normais que assustam. Não foi nem preciso dar um ar cool ao submundo da família ianque, como fez Beleza Americana, para mostrar isso. Fica a dica: alugue o filme, compre o disco. Chupe o dedo.

 

  • criado por  gnoofella criado por gnoofella
  • Postado em 18:57:09

26.07.06

Barbie e Ken

categorias: Entretenimento

Cerebralização juvenilizante e juvenilização cerebralizante. Os dois termos me foram apresentados há quase dez anos, pela professora Nehy, de Antropologia. Uma aula irritante para alguém com 17 anos e, sobretudo, quando ocupa suas sextas-feiras com filmes preto-e-branco sobre símios se assutando com fogueiras. Enfim, as duas expressões tratam, não necessariamente nessa ordem (frisa-se o nessa ordem) de situações corriqueiras que acometem a socidade. Casos práticos logo mais.

No geral, descrevem o processo cada vez mais precoce de as crianças amadurecerem e, posteriormente, de postergarem a mocidade quando já adultos. Isso é Antropologia e Antropologia é vida. Não é de agora que as crianças encurtam um dos períodos mais bacanas em troca dos primeiros beijos, goles e tragadas. É como se as meninas, antes do tempo, trocassem a Barbie pelo Ken.

Isso traz problemas sérios no desenvolvimento das pessoas, comprometendo-as com aspectos aparentemente simples, como a segurança para tomar uma decisão, já que não estão preparadas para isso. Culpa dos pais, principalmente aqueles que vestem meninas de seis anos de idade como prostitutas da Xuxa. O grave é que a saudável brincadeira de médico, atualmente, dá até diploma. 

Ao mesmo tempo, e quando na vida adulta, essas pessoas (trato aqui sobretudo das da geração 80, especificamente aquelas que foram crianças ou pré-adolescentes na década perdida, meu caso) fogem do padrão dos seus pais (casam tarde, não ligam para estabilidade financeira etc) e dificilmente se vêem como mais velhos. A crise dos 30 virou lenda. Finais de semana são entregues a jogos de tabuleiro sem o menor pudor. Baladas? Beber até cair? Deixe para a galera com 13, 14 anos...

Outro dia, em um churrasco, ouvi uma frase sintomática: "Estamos num puta churrasco, com um monte de meninas....e batendo figurinhas". Uma amiga tem uma tese interessante. Uma não, duas. A primeira é que negamos na cara dura nossa idade, e essa volta das atividades da infância é prova disso. Tem fundamento. Afinal, ninguém sai de casa para dançar ao som de Menudo porque acha a banda boa. Renderia horas de terapia.

Outra teoria é que, hoje, podemos comprar tudo aquilo que não pudemos ter na infância. Parece até que o mercado está atento a esse perfil de consumidor, que trabalha, tem grana e pode gastar quanto for com brinquedinhos modernos. A diferença entre crianças e adultos nessa história toda é justamente essa: o preço do brinquedo.

  • criado por  gnoofella criado por gnoofella
  • Postado em 23:12:15

21.07.06

Admirável Mundo Novo (Parte I)

categorias: Entretenimento

 

Demorei anos para começar, mas poucos dias para terminar, duas leituras que deveriam ser básicas para todos: as obras 1984 (George Orwell) e Admirável Mundo Novo (Audous Huxley). A primeira carrega um ar mais pessimista, carregado. A segunda é mais cínica e divertida, mas longe de refletir otimismo. Tratam, basicamente, de mostrar como seria uma sociedade governada com autoritarismo, que impusesse deveres, direitos e mesmo gostos à população. As pessoas, no geral, são apenas marionetes a serviço de uma vontade que não é a delas — até porque elas não têm nenhuma vontade além da que lhes foi condicionada.

Em Admirável Mundo Novo, o condicionamento se faz de pequeno. Cria os Alfas, mais inteligentes e capazes (não de tomar decisões, diga-se, já que essas ficam a cargo de Ford, o equivalente ao nosso Deus); os Betas, os Gamas, etc, cada um com funções operacionais pré-determinadas e imutáveis. Os bebês são de proveta, o amor materno inexiste. O amor inexiste. Mães inexistem. O envolvimento é puramente sexual, e com um maior número de parceiros possível — não há doenças, paixão. Qualquer insatisfação é controlada com doses de soma, espécie de LSD fornecida aos tubos pelo governo. Afinal, é mais fácil oferecer felicidade em pílulas. 

A sociedade vive, na obra, em Londres, e realiza comumente passeios para áreas onde podem avistar os Selvagens, ou a sobra que restou das pessoas como as conhecemos hoje em dia, com resquícios de sentimentos, apreço por valores básicos como amizade, religião, etc. As excursões dos gringos pela Favela da Rocinha talvez ilustrem melhor.

Os livros, repito, deveriam ser lidos por todos e mais de uma vez na vida. Ficará mais fácil visualizar como vivemos em uma sociedade dividida por castas, ainda que essa denominação se aplique oficialmente apenas aos indianos. Nosso valores inexistem da mesma maneira que no livro. Mata-se mãe, rouba-se amigo, puxa-se o tapete por empregos miseráveis. Há uma grande diferença das idéias centrais de George e Audous, sim: ainda temos sentimentos, ainda que deturpados e a cada dia voltados mais e mais para benefícios próprios.

Governos criam guerras para alimentar a indústria de armas; a sociedade cria doenças para alimentar a indústria farmacêutica. O capitalismo alimenta o consumo. Existe até um termo novo entre os marketeiros (Must have) que designa objetos que não servem para nada, no sentido de subsistência, mas que todo mundo deve ter porque todos os outros têm.

Existe um filme classudo que faz analogia ótima com o que digo. Alvorada dos Mortos, de George Romero, mostra uma cidade tomada por zumbis atacando os poucos mortais que restaram dentro de um shopping center. Referência maior ao impulso capitalista da nossa sociedade descerebrada não há. Não há lugar mais propício para ilustrar a decadência da humanidade do que num centro de compras desses. É só ir a algum dos 38 que existem em São Paulo e conferir.

 

 

  • criado por  gnoofella criado por gnoofella
  • Postado em 17:00:58