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Demorei anos para começar, mas poucos dias para terminar, duas leituras que deveriam ser básicas para todos: as obras 1984 (George Orwell) e Admirável Mundo Novo (Audous Huxley). A primeira carrega um ar mais pessimista, carregado. A segunda é mais cínica e divertida, mas longe de refletir otimismo. Tratam, basicamente, de mostrar como seria uma sociedade governada com autoritarismo, que impusesse deveres, direitos e mesmo gostos à população. As pessoas, no geral, são apenas marionetes a serviço de uma vontade que não é a delas — até porque elas não têm nenhuma vontade além da que lhes foi condicionada.
Em Admirável Mundo Novo, o condicionamento se faz de pequeno. Cria os Alfas, mais inteligentes e capazes (não de tomar decisões, diga-se, já que essas ficam a cargo de Ford, o equivalente ao nosso Deus); os Betas, os Gamas, etc, cada um com funções operacionais pré-determinadas e imutáveis. Os bebês são de proveta, o amor materno inexiste. O amor inexiste. Mães inexistem. O envolvimento é puramente sexual, e com um maior número de parceiros possível — não há doenças, paixão. Qualquer insatisfação é controlada com doses de soma, espécie de LSD fornecida aos tubos pelo governo. Afinal, é mais fácil oferecer felicidade em pílulas.
A sociedade vive, na obra, em Londres, e realiza comumente passeios para áreas onde podem avistar os Selvagens, ou a sobra que restou das pessoas como as conhecemos hoje em dia, com resquícios de sentimentos, apreço por valores básicos como amizade, religião, etc. As excursões dos gringos pela Favela da Rocinha talvez ilustrem melhor.
Os livros, repito, deveriam ser lidos por todos e mais de uma vez na vida. Ficará mais fácil visualizar como vivemos em uma sociedade dividida por castas, ainda que essa denominação se aplique oficialmente apenas aos indianos. Nosso valores inexistem da mesma maneira que no livro. Mata-se mãe, rouba-se amigo, puxa-se o tapete por empregos miseráveis. Há uma grande diferença das idéias centrais de George e Audous, sim: ainda temos sentimentos, ainda que deturpados e a cada dia voltados mais e mais para benefícios próprios.
Governos criam guerras para alimentar a indústria de armas; a sociedade cria doenças para alimentar a indústria farmacêutica. O capitalismo alimenta o consumo. Existe até um termo novo entre os marketeiros (Must have) que designa objetos que não servem para nada, no sentido de subsistência, mas que todo mundo deve ter porque todos os outros têm.
Existe um filme classudo que faz analogia ótima com o que digo. Alvorada dos Mortos, de George Romero, mostra uma cidade tomada por zumbis atacando os poucos mortais que restaram dentro de um shopping center. Referência maior ao impulso capitalista da nossa sociedade descerebrada não há. Não há lugar mais propício para ilustrar a decadência da humanidade do que num centro de compras desses. É só ir a algum dos 38 que existem em São Paulo e conferir.
criado por gnoofella
17:00:58